Realidade aumentada: o novo aliado da Medicina Dentária

Realidade aumentada: o novo aliado da Medicina Dentária

Na revista mensal O JournalDentistry de Dezembro de 2017, foi publicada a entrevista à  empresa Fithingenium, que escolheu a White Clinic para testar o produto em Portugal.

A possibilidade de visualizar imagens virtuais 3D em cenários reais abre inúmeras possibilidades aos profissionais de medicina dentária. A Fifthingenium, tecnológica que estão a apostar nesta área, explica-nos como. 

Matteo Valoriani, CEO, e Roberto Mangano, project manager da Fifthingenium.
Matteo Valoriani, CEO, e Roberto Mangano, project manager da Fifthingenium.

A Realidade Aumentada (RA) é uma tecnologia que sobrepõe imagens virtuais ao ambiente físico que nos rodeia. Popular sobretudo na indústria dos videojogos, graças ao fenómeno do Pokémon Go, tem provado o seu valor e aplicabilidade noutras áreas úteis para a sociedade, e a medicina dentária não é exceçào. A Fifthingenium é uma tecnológica que estão a apostar na utilização da RA em medi- cina dentária e a White Clinic foi o local escolhido para a empresa testar o seu produto em Portugal. Com recurso à  tecnologia HoloLens da Microsoft, esta soluçào tecnológica permite aceder a um workflow fluído e a uma comunicação otimizada, entre a equipa de saúde oral e com o paciente. Matteo Valoriani, CEO da empresa, e Roberto Mangano, pro- ject manager, explicaram a O JornalDentistry como é que a RA poderá transformar a medicina dentária nos próximos anos.

O JornalDentistry – Como nasceu a Fifthingenium?

Matteo Valoriani – Somos engenheiros, logo, o nosso foco estão voltado para a tecnologia. Trabalhei na Microsoft durante alguns anos e quando decidi fundar a Fifthingenium o objetivo foi o de conseguir trazer a tecnologia para a vida real. A principal missão da Fifthingenium não é criar nova tecnologia, mas sim utilizar a tecnologia de forma a melhorar a qualidade de vida das pessoas em diversas áreas, como a da medicina dentária.

Começámos a colaborar com o Prof. Doutor Carlo Mangano, em Itália, e agora colaboramos com a Digital Dentistry Society (DDS). A colaboração com a DDS tem-nos dado a oportunidade de promover a nossa proposta de valor junto de vários profissionais de medicina dentária. O Dr. Miguel Stanley é um desses exemplos. Consideramos a White Clinic uma das mais avançadas tecnologicamente e, assim, fez todo o sentido estabelecer trazer a nossa tecnologia para Portugal através desta parceria.

Além disso, a visão do Dr. Miguel Stanley estão totalmente alinhada com a nossa. Muitos dos médicos dentistas portugueses provavelmente já não utilizarào as primeiras versões da nossa soluçào, utilizarào versões mais avançadas. Esta é uma evoluçào semelhante à  que teve lugar no mundo do consumo eletrónico. Antigamente havia muitas pessoas que não tinham PC, que saltaram diretamente para o tablet e para os smartphones. Nós olhamos para a evoluçào da medicina dentária com alguma similaridade. Os médicos dentistas que hoje não utilizam certo tipo de tecnologias, provavelmente saltarào diretamente para as versões mais atualizadas das soluções tecnológicas.

Como nasceu a parceria com a Digital Dentistry Society?

Roberto Mangano – Tenho um historial familiar ligado à  medicina dentária, através do meu pai, o Prof. Doutor Carlo Mangano, e do meu primo Dr. Francesco Mangano, que trabalham juntos há 12 anos. Além de médicos dentistas, o meu pai e o meu primo estão ligados à  investigação clínica em diversas áreas. Membros da DDS, con- tam com uma rede de médicos dentistas em Itália muito vasta, de especialistas de topo, principalmente em implantologia. Nos últimos 10 anos, o meu pai juntou-se a outros profissionais de medicina dentária e começou a estudar a tecnologia, nomeadamente de que modo esta poderia beneficiar a prática da medicina dentá- ria.

A criação da Digital Dentistry Society surgiu com o cul- minar da investigação realizada pelos vários especialistas envolvidos no projeto. Desde o início que o objetivo foi criar um lugar onde todos — médicos dentistas, técnicos de prótese dentária — estivessem reunidos e fossem guiados através das novas tecnologias, ficando a conhecer como estas funcionam e como podem melhorar o dia-a-dia clínico. A DDS procurou sempre aliar os conhecimentos dos médicos dentistas mais avançados como forma de pro- porcionar uma perspetiva científica, e não apenas a das marcas. Os membros da DDS estão a utilizar as tecnologias numa base diária, a testão-la, e conseguem facultar os melhores insights sobre os seus benefícios para diferentes casos clínicos.

Enquanto engenheiro, trabalhei também em empresas tecnológicas e após ter reencontrado o Matteo, que fora meu colega na universidade, começámos a trabalhar juntos no desenvolvimento de novas tecnologias para o mercado. Tivemos em conta aquilo que já existia e, devido à s minhas dos médicos dentistas portugueses provavelmente já não utilizarào as primeiras versões da nossa soluçào, utilizarào versões mais avançadas. Esta é uma evoluçào semelhante à  que teve lugar no mundo do consumo eletrónico. Antigamente havia muitas pessoas que não tinham PC, que saltaram diretamente para o tablet e para os smartphones. Nós olhamos para a evoluçào da medicina dentária com alguma similaridade. Os médicos dentistas que hoje não utilizam certo tipo de tecnologias, ligações familiares, quando apostámos nesta tecnologia conseguimos ter acesso a uma base de profissionais a quem demonstrar de que modo a realidade aumentada poderia ser um forte aliado no dia-a-dia da clínica. Eles compreenderam automaticamente as vantagens.

A Realidade Aumentada, embora esteja já disseminada em diversas áreas, na medicina dentária ainda não é uma realidade. Que vantagens traz?

Matteo Valoriani – A tecnologia é demasiado rápida. Tudo o que é criado agora, representa apenas um fragmento daquilo que já existirá daqui a um ano. Nesse sentido, é fundamental ter uma visão, porque a tecnologia por si só não traz valor. há necessário visualizar uma área onde a tecnologia possa ser aplicada.

Roberto Mangano – Tecnologias como a realidade aumentada ainda não estão muito presentes na medicina dentária. Nós vimos aqui uma oportunidade.

As vantagens são inúmeras. Uma das principais é a comunicação com o paciente. O recurso aos óculos de Realidade Aumentada, neste caso a tecnologia HoloLens da Microsoft, permite mostrar ao paciente o estado da sua cavidade oral, com base na informação obtida por diferentes fontes: scanner intraoral, CBCT, entre outros. Todos os dados são recolhidos e transmitidos aos pacientes. Isto já era realizado, mostrava-se ao paciente o seu estado atual, o tratamento que seria levado a cabo e o respetivo resultado final. Porém, com recurso à  Realidade Aumentada, o paciente tem a verdadeira perceçào, em 3D, de todos os pormenores envolvidos no resultado final do tratamento.

A comunicação entre o médico dentista e o paciente tor- na-se assim muito mais poderosa. A comunicação entre médicos dentistas é também otimizada através do recurso à  Realidade Aumentada. Estejam no mesmo espaço, ou em locais totalmente diferentes, os médicos dentistas podem trabalhar sobre o mesmo modelo e planear conjuntamente o tratamento. Os profissionais conseguem, deste modo, trabalhar de forma mais rápida. Entre médicos dentistas e técnicos de prótese dentária a comunicação sai também beneficiada. Quando o médico dentista tem de enviar um modelo para o laboratório imprimir ou fresar, passa a ter a possibilidade de discutir com o técnico de prótese dentária, em tempo real, aquilo que pretende obter com os modelos, facultando-lhe também mais dados sobre o paciente e as suas especificidades. Maior rapidez, simplicidade e comunicação otimizada são as principais vantagens do recurso à  Realidade Aumentada.

Matteo Valoriani – O workflow das clínicas também sai a ganhar. Para trazer mais valor aos óculos de Realidade Aumentada, estamos a desenvolver, em conjunto com a DDS, um scanner facial que em apenas 10 a 20 segundos é capaz de digitalizar toda a cavidade oral do paciente. Os scanners intraorais que existem atualmente demoram entre 30 segundos a um minuto para obter um modelo digitalizado da cavidade oral. Isto permite que logo a partir da primeira consulta os profissionais obtenham toda a informação sobre o paciente. Após reunidas todas as informações sobre os pacientes, o workflow torna-se totalmente digital e fluido.

Os profissionais têm a oportunidade de visualizar a cavidade oral do paciente em qualquer momento, mesmo quando este não se encontra no consultório, tendo assim a possibilidade de realizar o planeamento de forma mais informada. Todas as clínicas que tenham já um workflow digital podem utilizar estes óculos de Realidade Aumentada. Durante cirurgias, por exemplo, o médico dentista tem a necessidade de olhar diversas vezes para monitores, como guia. Com a realidade aumentada, toda a informação que antes estava acessível no monitor passa a estar nos óculos de realidade aumentada, estando visível diretamente diante dos olhos do médico dentista, sem que este tenha de mover-se. Além disso, durante os tratamentos, os médicos dentistas têm a possibilidade de aceder a informação relevante sobre o paciente.

Roberto Mangano – Durante a cirurgia o médico dentista deixa de ter a necessidade de recorrer à  sua equipa para lhe dar informações. Ao invés, pode interagir por voz com os óculos, solicitando que estes exibam todos os dados necessários sobre o paciente. A possibilidade de os profissionais terem os dados disponíveis sem necessidade de utilizar as màos, nem sequer de se moverem enquanto realizam as cirurgias, é uma vantagem enorme: proporciona uma enorme poupança de tempo, ao mesmo tempo que reduz significativamente a margem de erro por permitir que o profissional esteja cem por cento concentrado.

Para os jovens médicos dentistas, que têm menos experiência e são mais inseguros, o recurso à  realidade aumentada pode trazer grandes vantagens…

Roberto Mangano – Quando os óculos são utilizados em conjunto com sistemas digitais guiados, os jovens médicos dentistas menos experientes podem ser orientados por um profissional mais experiente, dando-lhes um sentimento de confiança maior. A tecnologia ajuda. Isto é uma verdadeira mudança de paradigma.

Matteo Valoriani – O ensino universitário também pode beneficiar da utilização da Realidade Aumentada. Atualmente estamos a trabalhar com algumas universidades para criar cursos avançados de anatomia. Mas no ensino da medicina dentária também há uma oportunidade enorme.

Roberto Mangano – Se a utilização da Realidade Aumentada pode trazer benefícios para os profissionais durante a realização de cirurgias, pode ser também uma ferramenta de aprendizagem ainda durante o ensino universitário. Os alunos que tenham os óculos podem estar situados em qualquer parte do mundo e aprender como se estivessem na sala de aula. Este tipo de dispositivos permitem que alunos e professores vejam exatamente a mesma coisa, com o máximo de detalhe.

Depois, existe ainda outra dimensão. Os alunos estudam anatomia no curso, mas a realidade é que depois cada pessoa tem as suas especificidades. A capacidade de digitalizar a cavidade oral do paciente e de poder visualizá-la em detalhe proporciona a capacidade de personalizar os tratamentos.

Para os jovens médicos dentistas, o recurso a este tipo de tecnologias é mais simples, pois a grande maioria é já um nativo digital. Como pode a geração mais antiga de médicos dentistas percecionar o verdadeiro valor do recurso à  realidade aumentada?

Matteo Valoriani – A utilização de um scanner intraoral demora, em média, 30 minutos, e toda a equipa de saúde oral tem de realizar forma- çào intensiva. O scanner facial que estamos a desen- volver em conjunto com a Digital Dentistry Society ace- lera este processo. A sua curva de aprendizagem é bastante mais reduzida, sendo mais acessível a todo o tipo de profissionais.

Roberto Mangano – Existem médicos dentistas que investiram em produtos de ponta, que oferecem inúmeros benefícios, mas que não os utilizam. Muitos dos produtos que existem no mercado requerem muitas horas de formação e com as agendas totalmente preenchidas, os profissionais não têm a possibilidade de investir o seu tempo na aprendizagem da utilização da tecnologia. Muitas vezes a equipa de saúde oral é tão reduzida que não existem pessoas suficientes para tirar partido da tecnologia disponível.

Olhamos para a tecnologia que estamos a desenvolver como um elemento verdadeiramente disruptivo. Partilhamos a visão do Dr. Miguel Stanley, que é um aficionado da tecnologia, mas que sabe colocá-la ao serviço da sua prática profissional e tirar verdadeiramente partido dela. Embora hoje ainda existam muitos profissionais que não utilizam as mais recentes tecnologias, as suas vantagens são inegáveis e mais tarde ou mais cedo todos se aperceberào destas. há nesse sentido que na Fifthingenium, mais do que apresentar novas soluções ao mercado, estamos a moldar os nossos produtos como forma de os colocar inteiramente ao serviço de uma melhor medicina dentária digital. Ainda existem médicos dentistas cuja prática se centra em técnicas e tecnologias tradicionais.

Acredito que em menos de dois anos terào de se adaptar ao mercado e investir em novas formas de trabalhar. O mercado estão a evoluir e a migração para o workflow digital já não será uma opçào, mas sim uma obrigação, até por uma questão legal. A informação que se consegue obter através do CBCT é tão elevada comparativamente com a utilização dos métodos convencionais, que o médico dentista que não estiver a pensar recorrer a este tipo de ferramentas pode estar a colocar em causa o próprio paciente, pois não con- segue obter todas as informações de que necessita antes de partir para o tratamento.

Além da White Clinic, que mais clínicas estão a utilizar a vossa tecnologia?

Roberto Mangano – Ainda estamos a desenvolver a nossa tecnologia e, por isso, aquilo que temos neste momento em utilização é um protótipo. Em Itália contamos com um conjunto de clínicas que estão a testar o nosso produto. A parceria com a DDS estão a ser um impulso bastante importante para nós, pois conseguimos testar a tecnologia através de alguns dos seus membros, por toda a Europa.

Em Portugal, não poderíamos ter conseguido testar o nosso produto num local melhor do que a White Clinic. Com a tecnologia que clínica tem ao dispor, é possível testar a integração do nosso produto em diversos materiais.

Matteo Valoriani – Ao testar o nosso produto junto dos profissionais vamos conseguindo obter o feedback das pessoas que realmente sabem quais as necessidades de um médico dentista aquando do tratamento dos seus pacientes.

O investimento no digital ainda é bastante elevado. Estamos a caminhar para um mercado mais democratizado?

Matteo Valoriani – Vejo uma evoluçào nesse sentido. O scanner facial atualmente tem um custo bastante elevado. O nosso terá um custo abaixo da média de mercado, pois acreditamos que este tipo de tecnologia tem de estar em todas as clínicas. Muitos dos produtos que se encontram no mercado não trazem nada verdadeiramente novo e continuam ao mesmo preço de sempre.

Hoje existem produtos que conseguem executar os mesmos procedimentos, a um custo mais reduzido. Muitas vezes, o preço do produto não reflete o seu verdadeiro valor e, com a concorrência a crescer em volta deste tipo de tecnologias, a tendência será a dos preços médios continuarem a baixar.

Roberto Mangano – Consideramos que a tecnologia tende a tornar-se mais acessível com o avançar do tempo. Nos últimos anos apenas algumas pessoas têm tido a capacidade de investir, mas daqui a uns tempos todas as clínicas terào a oportunidade de estar equipadas com tecnologia de ponta. Mesmo o CBCT, que aporta um investimento elevado, com o passar dos anos deverá tornar-se mais acessível, pois o mercado tornar-se-á mais flexível.

Para mais informações sobre a Digital Dentistry Society ou para cursos em digital dentistry contactar:

scientificdepartment@whiteclinic.pt

Entrevista escrita por Sara Moutinho Lopes, O JournalDentistry, Dezembro 2017  

http://www.jornaldentistry.pt/edicoes/ojd-46-dezembro-2017

Screen Shot 2018-01-08 at 15.25.44

 

Related Posts

Accelerated aligners with photobiomodulation

When I first heard about clear aligners in the early 2000s (the US Food and Drug Administration approved the use of clear aligners to straighten teeth in 1980), it must have sounded like science fiction. The fact that it was created in Silicon Valley by people who had nothing to do with the dental industry, in seeking solutions that do not require complicated appliances in the mouth, is really an incredible story.

Read More
Scroll to Top